Soares Chronicles #97: A Síndrome da Mão Vazia

“Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del rio”
Jorge Drexler, Al Otro Lado Del Rio

No meu tempo a gente não ficava doente. Claro, eventualmente, a gente tinha gripe, caxumba, catapora, dor de ouvido, nada que meia dúzia de dias em casa na frente da TV não resolvesse. Mas a gente cresce, as coisas mudam e novas surgem.

Hoje a gente tem um monte de coisas que 30 anos atrás não existiam, ou melhor, existiam, a gente só não sabia o que eles eram. DDA, TOC, depressão, síndromes, males e manias, terapias holísticas e alternativas e um monte de outras coisas foram nomeadas nos últimos anos. Não pensem que eu estou menosprezando tudo isso, de maneira alguma, todos temos problemas, e todos temos somos fortes o bastante para lidar com eles. Mas, de vez em quando, cansa. E como cansa.

E quando cansa a gente respira fundo e continua. Mas tem algo antes do continuar, a gente olha pro lado e se lembra do porque que a gente continua. De vez em quando parece que a gente não enxerga nada. Tudo parece longe, a gente abre e fecha as mãos vazias, até que de repente, a nossa mão se encaixa noutra mão.

Uma outra mão forte e quente, uma outra mão que nos lembra que uma rua se atravessa um passo de cada vez, que nem sempre (talvez até a maioria das vezes) a gente não sabe o que tem do outro lado, mas a gente precisa seguir em frente e atravessar.

Tem uma frase de um poema do William Blake que eu gosto muito, ele começa os “Augúrios da Inocência” mais ou menos assim:

“To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.”

Ás vezes, as duas mãos precisam uma da outra. A que espera ansiosa no meio-fio, que já tentou atravessar uma ou outra vez, mas, acabou voltando. A outra, que também quer atravessar, mas não sabe como, não sabe o que falta, as duas se estivam, uma em direção á outra, se tocam e se seguram.

É assim que se segura o infinito na palma da mão, segurando outra. Nós somos seres finitos, somos. Temos uma data de validade. Mas enquanto isso, nós não nos compreendemos, nos descobrimos; nós não nos conhecemos, nos aprendemos; nós não sabemos onde terminamos e nos confundimos. Por isso, que vez ou outra precisamos de outro infinito, junto com o nosso, que caminhe do nosso lado, por que atravessar a rua pode ser uma boa eternidade.

A rua pode ser uma pequena estrada vicinal de uma cidade do interior, chão batido, rodeada por árvores e campos; ou, uma grande avenida no centro de uma capital, com diversas pistas, talvez até com uma faixa de pedestre ou um semáforo para atravessar com mais segurança. Pequenos e trêmulos passos, um de cada vez, com mãos se apertando com mais forca a cada passo chegando mais próximo do fim da travessia. Ou uma desabalada corrida, com as mãos se afastando como se fossem feitas de água, correndo uma por dentro dos dedos da outra.

A caminhada dura uma eternidade, a caminhada dura enquanto a gente se lembrar de segurar um na mão do outro e ir um passo de cada vez. Eternidade guardada nas palmas de dois infinitos.

Me de a mão e vamos caminhar.

“Ver um mundo num grão de areia,
E um céu numa flor do campo,
Capturar o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora

Um tordo rubro engaiolado
deixa o céu inteiro irado
Um cão com dono e esfaimado
prediz a ruína do estado
Ao grito da lebre caçada
da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
um querubim, seu canto silencia….
….Toda noite e toda manhã linda,
uns nascem para o doce gozo ainda
outros nascem numa noite infinda
Passamos na mentira a acreditar
qdo não vemos através do olhar
que uma noite nos traz e outra deduz,
quando a alma dorme mergulhada em luz
Deus aparece e Deus é luz amada
para aqueles que na noite têm morada
E na forma humana se anuncia,
para aqueles que vivem nas regiões do dia.”
William Blake, Augúrios da Inocência

M Soares
soaresontheroad@yahoo.com

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