Soares Chronicles #103: A friendzone na máquina de lavar

“Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele.”

Platão, O Banquete

Eu estava aqui observando o funcionamento da máquina de lavar roupa, que é uma coisa que eu acho muito bizarra. Pensem bem, a gente coloca um monte de coisa ali dentro e isso tudo fica girando, girando e girando e depois de um tempo, sai exatamente a mesma coisa que entrou, talvez faltando um pé de meia que nunca recuperaremos. Mais ou menos como a friendzone.

Eu tenho a idéia de que nós misturamos as coisas com um intuito transformacional, a fim de fazer algo diferente. Mais ou menos como fazer um bolo, misturamos a cenoura, óleo, ovos, açúcar, farinha e fermento, colocamos no forno e uns 40 minutos depois temos um bolo. E se no formos preguiçosos, fazemos uma cobertura de chocolate e temos um bolo de cenoura que realmente vale a pena ser comido. E o que isso tem a ver com a friendzone?

Ora, é evidente que a friendzone é uma máquina de lavar.

Pensem bem, a friendzone ta ali, a porta ta aberta, tu dá uma olhada e tu entra na friendzone, simples, tu entra na friendzone. As pistas que aquilo ali é uma friendzone estão ali, mas tu ignora e vai. Aí fica um tempo ali, gira prum lado, gira pro outro, mas não sai do lugar; até que um dia, tu sai. E de vez quando, assim como se perde uma meia, se perde um pedaço do coração.

E a pergunta que a gente faz é: isso é justo?

Há bons argumentos para os dois lados.

Eu já fui acusado, diversas vezes, de ter uma visão muito simples desse aspecto da vida. Quando eu gosto de uma pessoa, eu quero vê-la feliz. Aqui eu falo de sentimentos reais, não aquele tesaozinho porque ela tem uma bundinha bonitinha. Bunda bonitinha tem em qualquer esquina.

Além de querer vê-la feliz, eu quero ser responsável por isso. Eu quero que ela me olhe com os olhinhos do gatinho do Shrek porque ela sabe que eu vou resolver aquilo. Eu quero ver o sorriso, os olhos brilhando e saber que eu sou o responsável por isso. Eu sei é simples e idiota, né?

Enfim esse é um dos fatores que ao longo do tempo fizeram com que eu entrasse numa ou noutra friendzone.

Outro fator importante é que, inconscientemente, esperamos um prêmio por bom comportamento. Quando estávamos no colégio, e tirávamos um boa nota ou passávamos de ano, ao chegar em casa e dar essa notícia, esperávamos um parabéns dos nossos pais por algo que, na boa, era nossa obrigação.

Nós esperamos retribuição, quando fomos legal com alguém, esperamos que esse alguém seja legal de volta. Quando gostamos de alguém, esperamos que esse sentimento seja retribuído com igual intensidade. Esse é o nosso erro, essa expectativa é o sabão em pó da friendzone. É o que dá uma certa lubrificação ao movimento daquele giro contínuo e que de vez em quando aprece infinito na friendzone.

E depois do sabão em pó, tem o amaciante. O amaciante da friendzone aquele esforço a mais, é o extra, é o que dá cheirinho de bom rapaz na friendzone. Esse esforço extra faz tu ir na parada 73 de Gravataí. Esse esforço extra faz tu ir a Viamão, pra levar ela pra jantar no Iguatemi, porque é pertinho. 

E sabe porque a gente faz esse esforço extra? Porque o sorriso dela vale isso. Simples.

A nossa babaquice está em criar uma expectativa idiota. Afinal ser legal com as pessoas não é motivo de medalha, não é mérito, é, ou pelo menos devia ser, a nossa maneira de conviver com as pessoas. Ser legal é uma obrigação, ou pelo menos devia ser. Mas o que precisamos entender é que ninguém tem a obrigação de retribuir nossos sentimentos, nem mesmo, de também ser legal conosco.

E de novo a gente se pergunta: isso é justo?

Eu estou me segurando pra dizer que não é, e listar um monte de motivos sobre o porque todo mundo merece mais um pedaço de torta e aquele #mimimi todo, porém eu acho que as coisas só são assim. Não é uma questão de justiça. Eu me dei conta disso porque refletindo sobre isso eu cheguei a conclusão que eu também já coloquei alguém na friendzone. Não fiz isso com intenção de machucar ninguém, apenas não tinha aqueles sentimentos para retribuir e entendo que, mesmo inadvertidamente, eu possa ter machucado alguém.

Mas e como se sai da friendzone? Essa é a pergunta que intriga filósofos desde o início dos tempos, O Banquete de Platão tenta responder isso.

Na minha experiência, chega uma hora que a gente cansa de ficar girando e não sair do lugar, e vai embora. Arrebenta a porta da máquina de lavar e foda-se, eu não quero ser teu amigo. Isso não significa deixar de ser um cara legal, ou de tratar bem as pessoas, mas apenas se afastar pra achar as meias que perdemos no meio do caminho.

Também existe uma outra verdade, talvez só não queiram te ver pelado.

“Quando um homem, quer tenda para os rapazes ou para as mulheres, encontra aquele mesmo que é a sua metade, é um prodígio como os transportes de ternura, confiança e amor os tomam. Eles não desejariam mais separar-se, nem por um só instante. E pensar que há pessoas que passam a vida toda juntas, sem poder dizer, diga-se de passagem, o que uma espera da outra; pois não parece que seja o prazer dos sentidos que lhes faça encontrar tanto encanto na companhia uma da outra. É evidente que a alma de ambas deseja outra coisa, que não pode dizer, mas que adivinha e deixa adivinhar.” 

Platão, O Banquete

 —

M. Soares

soaresontheroad@yahoo.com

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