Soares Chronicles #105: O gosto do M&M vermelho

Como todos vocês sabem, eu sou fã do Homem-Aranha e hoje eu resolvi falar sobre uma história que eu gosto muito, Spider-Man Blue (ou Homem-Aranha: Azul). É uma minissérie que saiu em 2002, escrita pelo Jeph Loeb e ilustrada pelo Tim Sale.

 

Reparem na leveza do traço do rosto da Gwen Stacy.

Capa da edição encadernada de 2009. 

Isso ia ser bem mais legal se eu soubesse colocar imagens nos posts. Enfim, eu não sou fã do Loeb, na verdade eu não gosto de quase nada que ele escreveu, mas eu adoro Spider-Man Blue, acho que é o melhor trabalho dele , até porque ultimamente ele só tem feito merda. Em compensação, eu acho o Tim Sale sensacional. A composição das página, o ritmo dos quadros, o dinamismo que ele empresta pra história. E o cabelo da Gwen Stacy, ele e o colorista, Steve Buccelatto fizerem o melhor cabelo da Gwen Stacy da galáxia. Ever.

Essa é uma das páginas mais perfeitas de todos os tempos.

Essa é uma das páginas mais perfeitas de todos os tempos.

Esse é o aspecto técnico, agora vamos à história. A história não é importante. A gente já leu essa história, essa minissérie reconta algumas edições da The Amazing Spider-Man (especificamente os números 43-48 e 63, que são edições dos anos 60) por um novo ponto vista. Um Peter Parker mais velho, com saudade da sua Gwen Stacy, fala ao gravador, como que contando pra ela, como eles quase não se apaixonaram.

Em linhas gerais a história começa com um confronto entre o Duende Verde e nosso amigão da vizinhança, depois disso ele ainda vai enfrentar o Rino, o Lagarto e dois Abutres, e por fim, Kraven , o Caçador. Na época que a minissérie foi publicada havia uma idéia de apresentar os poderes do Teioso, não só como científicos (lembrem-se, ele foi picado por uma aranha radioativa), mas também, totêmicos. Ele ganhou esses poderes animalescos, para enfrentar vilões também com poderes assim. Se olharmos a galeria de vilões do Homem-Aranha ele tem diversos vilões com essas características, além dos que eu já citei, tem também o Octopus, o Escorpião, o Morsa, a Coelha Branca e outros. Há uma teoria semelhante sobre o Batman, já que ele só enfrenta gente tão ou mais maluca que ele.

Enfim, voltando. Kraven, o caçador, testa sua presa (o Homem-Aranha) contra diversos outros pedradores (Rino, Lagarto, Abutres), para quando cansada, caçá-la. Obviamente que o Homem-Aranha derrota todos eles e salva o dia. Mas o importante não é essa história.

O importante é a reflexão que o Peter Parker faz enquanto conta essa história. Esse é um daqueles momentos de identificação com a personagem, o que o Peter Parker é ter aquela conversa que a gente não tem. É quando a gente fala sozinho dirigindo o carro, ou escutando música no ônibus, aquela carta que a gente escreve e não manda, aquele post que a gente escreve e deleta.

A história deles não é diferente da de qualquer um de nós. Um dia a gente nota alguém, outro dia a gente se dá conta que não paramos de olhar pra esse alguém, se a gente der sorte, percebe que esse alguém também não para de olhar pra nós. Aí acontece alguma coisa idiota do tipo: “Troquei o portão da minha casa.”, “É mesmo? Legal.”, “Tu não quer ir lá em casa ver o portão novo? É que a última vez que tu foi, tinha um portão velho e agora tem um portão novo. E… bom… hã… eu queria a tua opinião sobre ele.”

Ou então a guria olha pra ti e te pergunta: “Tu já beijou alguém de piercing na língua?” e em vez de dizer não e partir pro abraço, tu olha com uma cara meio em dúvida “Piercing na língua?” , “É, assim”, e ela mostra a língua, que obviamente tem um piercing, e de novo, em vez de dizer não e partir pro abraço, tu olha pra cima, coça o queixo, conta nos dedos, diz: “Já, umas duas ou três.” E continua caminhando.

Mas enfim, eu acabei perdendo o ponto do texto. Nessa história, nosso amigo Peter Parker chega a conclusão que a vida dele é uma sucessão de coisas que só pioram pra depois melhorar. Isso é bem explorado na idéia de que toda vez que algo bom acontece, geralmente envolvendo ele se aproximar da Gwen Stacy, alguma coisa acontece que exige a presença do Homem-Aranha, afastando-os ainda mais. E nessas edições muita coisa acontece, é quando o Peter Parker se muda da casa da Tia May para morar com o Harry Osborn, tem a tia May empurrando a sobrinha da vizinha pro Peter (só pra constar, é a Mary Jane Watson), tem aquele questionamento ‘que que eu to fazendo com a minha vida’ protagonizado pelo Flash Thompson, que se alista no exército (como a gente tá nos anos 60, isso significa ir pro Vietnã). Essas edições  são algumas das primeiras em que o Peter Parker deixa de ser o adolescente nerd para se tornar um homem adulto.  Esse é um dos primeiros momentos que isso acontece, a gente tá falando de edições dos anos 60, então elas eram em real-time, é realmente o quarto ano do Peter Parker como Homem –Aranha, então é um guri de 20,21 anos, começando a montar a sua vida. Todo mundo já passou por isso.

Essa idéia do piorar muito antes de melhorar, é bem ilustrada porque sempre que algo bom vai acontecer, algo acontece (notavelmente, algum dos super-vilões aparece, e o Peter Parker vai resolver o problema como o Homem-Aranha), piorando a situação. E o questionamento que ele faz é exatamente esse, será que valeu a pena? Há dois quadros muito específicos:

 

Sem saber o que a gente procura, a gente não acha.

Sem saber o que a gente procura, a gente não acha.

Esse é o momento da pergunta do piercing. Como tu tá preocupado com o Abutre, tu não te dá conta que a guria perguntando se tu já beijou alguém de piercing, quer te beijar. Porque tu é um idiotão.

 

Grandes poderes, grandes responsabilidades.

Grandes poderes, grandes responsabilidades.

E aqui outra pergunta que todo mundo se faz: quantos beijos eu perdi porque eu não tava contigo? O que eu podia tá fazendo de tão importante que era mais importante que ficar contigo?

No caso do Homem-Aranha, isso provavelmente envolvia um babaca que achou uma boa idéia se fantasiar de morsa e roubar um banco.

Para entender como o Homem-Aranha funciona, ou melhor, para entender como o Peter Parker funciona a gente precisa entender uma frase: “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades.” O altruísmo é o maior valor do herói. O sentimento de que o mais forte pode e deve auxiliar os mais fracos, isso é verdade em todos os exemplos heróicos que nós temos, o Batman tem isso, o Super-Homem, o Homem de Ferro, até o Superpateta deixa as suas vontades para auxiliar os outros. O grande diferencial do Homem-Aranha para esses outros heróis é o questionamento, é a reflexão provocada por esse questionamento; e essa reflexão é um reflexão do Peter Parker, quando lemos as boas histórias do Homem-Aranha, elas são na verdade histórias do Peter Parker, ele é o verdadeiro protagonista. E no Spider-Man: Blue os protagonistas são o Peter Parker e a Gwen Stacy, todo o resto, inclusive o cara que transformou a cabeça de um leão num colete, são complicações.

Voltando, a vida do Peter Parker é um ciclo de coisas piorando muito, porque em determinado momento elas só podem melhorar. Verdade que na maioria das vezes essa melhora envolve bater em alguém vestido de rinoceronte, mas a gente também pode se divertir, né?

A história inteira é marcada por pequenos detalhes, pequenas observações nos quadros, não por acaso, azuis que se espelham nas nossas próprias histórias:

 

Sempre que tu olhar pra trás e ela tiver te olhando, tu vira geléia.

Sempre que tu olhar pra trás e ela tiver te olhando, tu vira geléia.

Peter Parker é um believer. Ele também é um idiotão.

Peter Parker é um believer. Ele também é um idiotão.

Esse é o aspecto do Peter Parker que eu mais gosto, ele é um idiotão que nem o Ted Mosby, que nem o Ross Geller ou o Xander Harris e claro, eu. Se tu tem alguma dúvida de que eu sou um idiotão, lê de novo aquelas duas histórias que eu contei no início do texto que tu vai concordar comigo. O idiotão é essa ansiedade, essa dúvida, essa insegurança, é virar geléia quanto ela te olha, é pensar besteira no meio da aula, é balbuciar alguma idiotice sobre um portão, é lembrar um abraço que durou 10 segundos além do normal enquanto vocês se despediam, é levar ela pro planetário no primeiro encontro.  E é depois de tudo isso ainda se lembrar.

Memórias, lembranças, saudades, tudo isso dá em casa comentário que o Peter Parker faz nessa história. E o mais comovente não é só a saudade do jeito que o cabelo dela se mexia no vento, ou como ela tomava refrigerante, ou do cheiro de suco de laranja, não o mais comovente é que ele se dá conta de tudo que eles não viveram. O Peter Parker sente falta de não ter isso em mais uma sessão de cinema, de não ter dançado mais uma música, de não comer mais um sorvete de flocos, de não dar mais um beijo na Gwen Stacy. Essa história “é sobre lembrar de alguém que era tão importante que eu achei que ia passar o resto da minha vida com ela. O que eu não sabia é que ela que iria passar o resto da vida dela comigo”.

No final eu acho que nosso amigo Peter Parker faz as pazes com ele mesmo e com ela também.

Como ele mesmo diz no início: “Algumas pessoas ficam conosco enquanto nos lembrarmos delas.”  Todos nós temos algumas coisas que nos lembram pessoas que passaram na nossa vida, seja uma ex-namorada, seja um amigo que a vida afastou, um parente que já se foi, não importa nós, fazemos essa identificação quase no automático. É abrir um pacote de M&M’s e automaticamente começar a separar por cor, porque assim é mais gostoso. Porque assim o M&M vermelho tem gosto de saudade.

Quando tudo tem gosto de saudade, quando qualquer coisa te lembra dela, e pare que tudo tá ruim na tua vida, só tem uma coisa que dá pra fazer, melhorar.

É assim que começa a história.

É assim que começa a história.

P.S.: A história do portão funcionou.

M.Soares

soaresontheroad@yahoo.com

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